Do jornalista Carlos Chagas, comentarista do SBT e da Rádio Jovem Pan:
Brasília (ALO) - Ontem, primeiro dia de reabertura dos trabalhos do Congresso, só não era de espanto e de perplexidade a reação de deputados e senadores porque, faz muito, já se acostumaram. Acostumaram-se com que? Com mais outro dos singulares improvisos do presidente Lula, feito na véspera, em Mato Grosso do Sul. Ninguém entendeu a história das duas orelhas que Deus nos deu, uma para escutar aplausos, a outra, vaias. Pior ficou, porém, para os intérpretes das falas presidenciais, a referência aos banqueiros e empresários que jamais ganharam tanto dinheiro como no seu governo e agora movem campanha contra ele. A primeira parte da afirmação está certa, até confirmando a mudança profunda nas concepções políticas do Lula, porque os ricos estão cada vez mais ricos. A conclusão, porém, carece de verdade. Não são as elites, fora histriônicas exceções, que lançaram a expressão "cansei", para criticar o governo.
É a classe média que se insurge. Aquela que não enriqueceu, como os empresários e os banqueiros nem beneficiou-se dos programas assistencialistas dedicados às massas. É a que paga as contas e sempre deu sustentação ao poder público. Quando deixou de dar, os resultados foram trágicos.
Se o presidente Lula confunde os dados da equação, será menos por falta de compreensão dos fenômenos sociais, mais por malícia. Pretende excluir a classe média de suas considerações por já havê-la perdido, por isso apresentando à opinião pública um país rachado de alto a baixo por seus extremos, arvorando-se em porta-voz das massas e criticando apenas de boca aqueles a quem presta os maiores serviços. Não é por aí que o Lula recupera seu prestígio. Nem através desses esdrúxulos improvisos.
OS NÚMEROS NÃO MENTEM
Como a demonstrar que as elites continuam muito satisfeitas, vale referir números divulgados ontem: no primeiro semestre deste ano o governo "economizou" 71 bilhões e 600 milhões de reais para o pagamento de juros das dívidas externa e pública. Um dinheiro fantástico para quem necessita construir mais um aeroporto em São Paulo, desviar as águas do São Francisco, recuperar a malha ferroviárias, ampliar os portos e investir em saneamento básico, habitação popular, criação de hospitais e escolas.
Quem se beneficia com essas "economias", senão os banqueiros e demais empresários do setor financeiro? Jamais seus lucros foram tão grandes, como demonstram os balanços semestrais das respectivas atividades.
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